02/02/2026

Empresas de crédito de carbono apostam em regulamentação para destravar bilhões em negócios

Por: Pedro Lovisi
Fonte: Folha de S. Paulo
As empresas que geram créditos de carbono começam o ano de olho na
regulamentação do mercado pelo governo brasileiro, que terá potencial de
aumentar de forma exponencial a demanda de setores poluidores por esses
ativos e destravar bilhões de reais em negócios.
Companhias geradoras de crédito de carbono como Carbonext, que tem a Shell
como acionista; a Re.green, dos Moreira Salles e Armínio Fraga; a Mombak, do
ex-CEO da 99 Peter Fernandez; a Systemica, ligada ao BTG; e a Future Climate,
que tem Luciano Huck e Carol Paiffer como investidores minoritários, podem
se beneficiar das novas regras. Representantes dessas empresas, que são as
maiores do setor, disseram à Folha que esse é o principal foco para 2026.
Segundo estimativa do Banco Mundial, se as companhias sujeitas às regras
puderem compensar até 20% de suas emissões com créditos de carbono, elas
poderão comprar R$ 14 bilhões em créditos até 2040.
"Certamente há um potencial para que o mercado regulado tenha um impacto
no setor. Observamos a regulamentação de mercados em diversos países que
também tiveram impactos em nossos negócios, então no Brasil temos uma
perspectiva positiva", diz Dan Harburg, diretor de produtos da Mombak,
empresa de restauro florestal. Califórnia, Austrália e Canadá são algumas das
jurisdições que introduziram créditos em seus mercados e viram a demanda
crescer desde então.
Por enquanto, o que existe no Brasil é apenas o chamado mercado voluntário,
no qual empresas poluidoras compensam suas emissões de carbono por conta
própria com o objetivo de retardar o aquecimento global, mas isso vai mudar
em breve. Uma lei aprovada em 2024 determina que até 2030 o governo federal
coloque em operação o mercado regulado, no qual empresas são obrigadas a
reduzir suas emissões.
Até lá, os técnicos do governo trabalharão na regulamentação desse sistema —
e 2026 é fundamental nesse processo. O Ministério da Fazenda vai decidir, neste
ano, a porcentagem das emissões de carbono de indústrias poluidoras que
poderão ser compensadas a partir da compra de créditos. O governo também
definirá quais tipos de créditos poderão ser comercializados no mercado
regulado e quais poderão ser exportados de forma oficial no sistema
internacional.
Os créditos de carbono equivalem a toneladas de carbono absorvidas da
atmosfera e, no Brasil, são gerados sobretudo por projetos de conservação e
restauração florestal. Há também projetos de energia limpa, agricultura e
manejo de resíduos sólidos.
O último relatório do Banco Mundial apontou que em 2024 foram gerados 300
milhões de créditos de carbono no mundo, número menor que os 350 milhões
gerados em 2021 e 2022, anos dourados desse mercado. Segundo consultorias,
o setor movimentou em 2024 US$ 500 milhões em contratos de curto prazo,
bem menos que os US$ 2 bilhões de dois anos antes. O Brasil, de acordo com
analistas, é responsável por emitir entre 10% e 15% desses créditos.
CORRIDA
As empresas estão se movimentando para tentar garantir que o tipo de crédito
de carbono que produzem seja incluído no rol de metodologias aceitas pelo
governo.
Janaina Dallan, co-CEO da Carbonext, pretende garantir que os créditos de
conservação florestal entrem no mercado regulado. A Carbonext é especializada
em projetos que geram créditos a partir da conservação de áreas ameaçadas pelo
desmatamento, principalmente na Amazônia.
Chamado de REDD+, essa modalidade de crédito foi foco de esquemas
fraudulentos nos últimos três anos, o que reduziu a demanda e provocou críticas
do governo. Agora, a empresa vê o mercado retomando contratos, depois de
ajustes recentes nas metodologias.
"O REDD+ é importante para o país como um todo. A Carbonext já tem
outros tipos de projetos no portfólio, mas a gente entende que é algo muito
significativo para o país", afirma Janaina, para quem o crédito é uma forma de
ajudar o Brasil a conservar suas florestas.
A empresa tem planos de emitir neste ano entre 1,5 milhão e 2 milhões de
créditos, sendo que uma parte minoritária já tem compradores. Hoje, o desafio
da empresa é encontrar clientes dispostos a pagar mais do que US$ 10 por cada
crédito, enquanto no restauro os preços são superiores a US$ 30.
Caso não entre no mercado regulado, esse tipo de crédito não poderá ser
comprado por empresas com operação no Brasil para compensar oficialmente
suas emissões nem por países que queiram reduzir suas pegadas de carbono.
Ele também não poderá ser vendido para companhias aéreas, incluindo as
internacionais, que a partir do ano que vem precisarão compensar suas emissões
de acordo com as regras da OACI (Organização de Aviação Civil
Internacional), que podem gerar uma demanda anual de 150 milhões de créditos
no mundo todo.
Trata-se de mais da metade do total de créditos usados em 2024 por todos os
setores, conforme dados mais recentes do Banco Mundial. O Brasil é
responsável por gerar entre 10% e 15% do total de créditos no mundo, segundo
estimativas, o que coloca as desenvolvedoras do país à frente desse novo
fornecimento.
Desenvolvedoras de projetos de energia limpa e agricultura também estarão
atentas à regulamentação. Uma das maiores desse setor, a Future Climate, tem
cerca de 65% de seus créditos atrelados a projetos de transição energética,
incluindo energia solar, eólica e biogás.
No Brasil, no entanto, inclusive dentro do governo, há quem argumente que
plantas de energia solar e eólica são na maioria dos casos viáveis
economicamente e, por isso, não deveriam gerar créditos de carbono. Por outro
lado, esses estão entre os créditos mais vendidos no mercado internacional,
apesar de serem os mais baratos, segundo o Banco Mundial (média de US$ 1
por crédito).
"O mercado regulado vai ter um impacto muito relevante no mercado interno,
mas outras jurisdições continuarão reconhecendo os créditos com base em suas
leis internas", afirma Fábio Galindo, CEO da Future Climate. Segundo ele,
outros países continuarão absorvendo esses créditos, mesmo que o mercado
regulado brasileiro não aceite.
Ainda assim, a empresa tem ampliado seu portfólio, principalmente em projetos
florestais. No ano passado, venceu uma concessão do governo do Amazonas
para conservar uma área cinco vezes maior do que a cidade de São Paulo e agora
cogita entrar na disputa pela restauração de áreas da União em Rondônia, que
acontecerá em março. Para isso, pode investir neste ano entre R$ 50 milhões e
R$ 60 milhões por meio de um consórcio. É provável que parte desses créditos
seja emitida quando o mercado regulado já estiver em operação.
A entrada no mercado regulado dos créditos de restauro é tida como certa pelo
setor. Isso deve beneficiar empresas como Re.green, Mombak e Systemica, que
estão entre as maiores nesse segmento.
Os créditos de restauro são hoje um dos mais reconhecidos do mercado
voluntário e são comprados, sobretudo pelas big techs. Além delas, a Petrobras
organizou um certame para projetos de restauro em janeiro que prevê
investimentos de até R$ 450 milhões, segundo a empresa.
"Eu diria que um quarto dos créditos comprados das empresas de big tech vem
do Brasil", afirma Maria Belen Losada, chefe de produtos de carbono do Itaú.
O banco estima que esse mercado tenha movimentado US$ 1,5 bilhão em 2025.
A estimativa não considera os contratos de longo prazo, que podem atualmente
significar 40% do mercado.
Re.green e Mombak já têm contratos de longo prazo assinados com Microsoft
e Google, respectivamente, e contam com investimentos do BNDES. Para
entregar os 6,5 milhões de créditos vendidos para a Microsoft ao longo de 25
anos, a primeira tomou empréstimos em 2024 e 2025 com o banco que chegam
a R$ 437 milhões. A segunda, por sua vez, viu neste mês seu controlador receber
R$ 500 milhões do banco, com a contrapartida de o fundo levantar valores
maiores junto a instituições privadas.
Já a Systemica venceu no ano passado a concessão do governo do Pará para
restaurar uma porção da floresta amazônica e poderá ter, ao longo dos
próximos 40 anos, uma receita bruta de R$ 950 milhões.
Nenhuma delas, no entanto, ainda emitiu créditos de restauro —para financiar
suas atividades, as empresas usam a receita de adiantamento de contratos ou
levantam dinheiro via empréstimos bancários.
"A gente tem hoje, de créditos comercializados, mais de 7,4 milhões de
toneladas para os próximos 30 anos, e vamos emitir os primeiros neste ano",
diz Fernando Visser, diretor de desenvolvimento e inovação da Re.Green. A
Mombak, que já tem contratos garantidos até 2035, pretende entregar os
primeiros créditos em 2028
Ainda assim, todos eles almejam a regulamentação. "Esse processo é
importante para sinalizar e reconhecer o que são projetos íntegros", diz Munir
Soares, CEO da Systemica. "Assim, se a Amazon, a Apple ou a Chevron, por
exemplo, forem comprar um crédito brasileiro, elas vão ter mais tranquilidade
para adquirir os créditos aceitos pelo governo, mesmo que seja por motivos
voluntários."
AS PRINCIPAIS EMPRESAS
As companhias não informaram o faturamento.
Empresa: Carbonext
Principal investidor: Fundada pelos irmãos Janaína Dallan e Luciano Fonseca,
que ainda mantêm o controle da empresa. Em 2022, a Shell se tornou acionista
minoritária.
Principais projetos: Conservação florestal no norte do país, mas expandiu seu
portfólio para projetos de agricultura com a aquisição da NaturAll Carbon.
Empresa: Future Climate
Principal investidor: Controlada por um grupo de cinco executivos, entre eles
Rafael Borgheresi e Fábio Galindo. O apresentador Luciano Huck e a
empresária Carol Paiffer são acionistas minoritários.
Principais projetos: Apesar de ter forte presença em projetos florestais, a
maior parte dos créditos emitidos pela empresa vem de projetos de agricultura,
transição energética e saneamento.
Empresa: Re.green
Principal investidor: Gestora Lanx Capital, do executivo Marcelo Medeiros.
O bilionário João Moreira Salles e a Gávea Investimentos, de Armínio Fraga,
também fazem parte do controle.
Principais projetos: A Re.green é especializada em projetos de restauração
florestal, com negócios concentrados na Amazônia e na Mata Atlântica.
Empresa: Mombak
Principal investidor: A maior parte dos recursos da Mombak vem do fundo
The Amazon Reforestation Fund, criado pelos fundadores da empresa, Peter
Fernandez e Gabriel Silva. Também fazem parte dos investidores as gestoras
Bain Capital, Union Square Ventures, Kaszek, Byers Capital e Conservation
International.
Principais projetos: A Mombak é especializada em projetos de restauração
florestal. Seus negócios estão concentrados em no Pará.
Empresa: Systemica
Principal investidor: Os fundadores Tiago Ricci e Munir Soares; em 2023
recebeu o BTG Pactual como acionista minoritário.
Principais projetos: A empresa tem projetos de conservação e restauro
florestal principalmente na Amazônia.